cruz-religiosa-iluminada2E quando eu for elevado da terra, atrairei todos a mim” (Jo 12,32)

No dia 14 de setembro, celebraremos a festa da Exaltação da Santa Cruz. Se na “sexta-feira santa” celebramos a crucifixão e a morte, agora celebraremos, em tom festivo, a vitória do bem sobre o mal, o amor que salvou o mundo e reconstruiu a vida, a nossa salvação.

Os santos nos falam dessa celebração: “Os amigos do crucificado deverão celebrar com alegria a festa da cruz” (São Paulo da Cruz). “Celebremos a festa da cruz, por ela as trevas são repelidas e volta a luz. Celebremos a festa da cruz e junto com o Crucificado somos levados para o alto para que, abandonando a terra com o pecado, obtenhamos os céus” (Santo André de Creta).

Mas, que sentido tem exaltar a cruz, numa sociedade marcada pela violência, e que busca anular o sofrimento?

Por um lado é “compreensível” a sociedade rejeitar a cruz: Jesus Crucificado é sinal da maior violência que já aconteceu na história da humanidade. Repudiamos a sua condenação injusta, os maltratos, a desumanidade dos carrascos na sua Paixão e Morte. E como se não bastasse esse ato cruel do passado, estamos saturados de cenas de tortura e agressividade à nossa volta. Vivemos dominados pelo medo de sermos a próxima vítima. A vida ficou vulnerável em meio a tanta violência, ódio e maldades. Mas isso justificaria a “frieza” em celebrar a cruz?

Não! A questão é mais profunda, há uma insensibilidade para com quem sofre. O sofrimento, hoje, se tornou tabu. Quem está sofrendo busca calar-se para não ser reprimido, isola-se para não ser ridicularizado. A resposta que se ouve quando alguém tenta partilhar a sua dor é: “Isso não é nada”. Até mesmo igrejas que se dizem cristãs estampam em suas portas: “Pare de sofrer”. Mas a dor continua…

As pessoas já não estão dispostas a sentir o que outras sentem, a se colocar no lugar da outra pessoa. Cada um quer ficar na sua, não quer ser perturbado em sua felicidade privada.

Para essas pessoas, exaltar a cruz é uma afronta, uma vez que tentam banir qualquer símbolo que lembra a dor, como se pudessem anular a condição humana. Sim! Ignorar a cruz é desconsiderar o que somos, é deixar de lado a nossa “carne” assumida pelo Filho de Deus (cf. Jo 1, 14).

A cruz nos fala da história da paixão de nossos tempos. Mas, simultaneamente, ela traz esperança para o sofrimento porque foi superada na morte de Jesus na cruz. “Num mundo de sofredores, a cruz mostra que eles não estão esquecidos por Deus e que Deus olha, para eles e seu sofrimento, da mesma maneira que olhou para seu Filho na cruz. Os símbolos do sofrimento precisam ser expostos para que o esquecimento do sofrimento não fique ainda mais exacerbado. Pois quando o sofrimento é suprimido, leva à brutalização da sociedade.” (Anselmo Grunn).

Exaltemos a cruz, pois ela nos diz que o redentor em Jesus, não está num instrumento de suplício, nem no sangue derramado, nem a morte tomada em si mesma, mas na atitude de amor, de entrega e de perdão que o levou a morrer Crucificado.

Exaltar a cruz é colocá-la diante do olhar de todos e deixar-se ser atraído por ela, para que nos sintamos continuadores e atualizadores da situação do servo sofredor, cuja Paixão injusta reclama Redenção. Uma convocação a ações libertadoras. Permaneçamos na escola da cruz. Ela tem muita coisa ainda a nos ensinar…

Pe. Amilton Manoel da Silva,
CP – Provincial