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LEMBRANÇA DO PE. FULGÊNCIO

Pela ocasião da chegada dos restos mortais do Pe Fulgêncio, CP em São Carlos (SP), foi celebrada uma missa na Igreja São Sebastião dia 31 de Dezembro de 2016 e no dia 1 de Janeiro/2017 ele foi depositado na Capelinha dos Passionistas, no Cemitério Nossa Senhora do Carmo. Por conta de sua proximidade com as Monjas Passionistas, foi composto este belo texto que segue abaixo:

Falar do Pe. Fulgêncio não constitui apenas um testemunho, mas uma dívida de gratidão para com este nosso irmão, mais Pai que irmão, que dedicou 23 anos de sua vida como Capelão do nosso Mosteiro. Já nos dias da fundação, quando a Ir. Maria da Paz lhe pediu que assumisse esta tarefa ele gemeu um pouco e disse: “se ao menos tivesse uma bicicleta…”
Mesmo sem bicicleta, nem calor, nem frio, nem chuva, nem sol terrificante, doença ou mal estar, impediam-no de subir a ladeira outrora deserta do Santa Felícia, só para vir celebrar a missa com a nossa comunidade monástica. Naquela época, era sempre à tarde, justo na hora em que o sol ofusca o olhar quando se caminha para o poente, e talvez por isso teve a sabedoria de descobrir que muitas vezes “o sol dá olhos e outras vezes dá nos olhos”.
Tinha a veia mística dos grandes homens de Deus que descobre os seus divinos vestígios em cada coisa, em cada pessoa, em cada situação,,. Fazia o seu trajeto de descida e subida até o Mosteiro, sentindo Deus em tudo e captando as suaves melodias do Invisível nas quais se inspirava para compor.
Mas via Deus principalmente nas pessoas. E por isso, para ele era muito correta a atitude de um colega seu em Portugal que, não tendo uma estátua do Menino Jesus, deu para beijar na noite de Natal, a verdadeira imagem de Deus: uma criancinha. Como ele gostava de nos repetir esta história!!
Ver Deus nas pessoas, nos pobres: Esta foi sua doutrina repetida constantemente, de todos os modos e jeitos, em cada homilia, com uma criatividade incrível. Parecia até uma obsessão !!! o 25 de São Mateux!
E se este era o seu refrão, era também o seu rema. Quantas histórias pitorescas sobre isto poderíamos contar!! Certa vez, chegou ao Mosteiro com um pobre, e chamando a Madre disse para lhe dar “café com leite, pão com manteiga”.

Pegava de suas próprias roupas para doar aos pobres e mesmo nas noites de frio dava até os seus cobertores. Foi por sua palavra que naquele tempo os pobres que iam à portaria da São Sebastião, começaram a ser atendidos e servidos do lado de dentro e não mais fora. Muitas vezes, alguns maus intencionados conseguiram explorar a sua caridade tomando toda a sua aposentadoria ao se fingirem de pobres.
E a sua caridade não era apenas com os pobres ou as pessoas de fora do convento. Os noviços que naquela época moravam em São Carlos contavam, edificados, muitos fatos que presenciaram da sua caridade em ato. Certa vez um deles, o elogiou falando do seu espírito de pobreza que nada tinha para si, enquanto os outros Padres tinham isto e mais aquilo. O Pe. Fulgêncio, humilde e caridosamente, respondeu: “mas eu tenho o meu tempo para dormir, enquanto eles à noite sempre estão envolvidos em tantos compromissos e reuniões a serviço da paróquia”.
Desta forma, estando ainda na terra, já vivia no céu, pois como dizia: “a outra vida é a vida do outro”. Era como um anjo bom vivendo entre nós, passando pelas nossas ruas e estradas a pé, dando o seu sorriso, o seu aceno, a sua bênção, num testemunho de pobreza e caridade. Sua pessoa falava tanto que todos queiram estar com ele, lhe dar carona. E era sempre de carona que viajava: chegou a ir até ao Chile. Enquanto viajava, ia conversando, catequizando, confessando os caminhoneiros e motoristas.
Para com as Monjas tinha um carinho todo especial, não nos deixando nunca sem a santa Missa. Chegou até a visitar o nosso Mosteiro recém fundado em Goiás. Dizia que, se na cidade houvesse apenas dois pães, um seria dos religiosos. Chegava sempre arrastando as sandálias, molhado – de chuva ou suor – e com sua simplicidade, certo dia, ousou até a pedir um hábito da Superiora para poder se trocar.
Assim, providenciando roupas para isso, à tarde ele chegava, se trocava e ensaiava com as irmãs. Depois rezava o Oficio divino e celebrava a missa. Foi por todos estes anos (23) o confessor da comunidade, agindo sempre com caridade, paciência, prudência e discrição. Quando não podia atender, pedia desculpas e deixava para outro momento: “O Padre hoje não pode!”
Suas homilias eram bem curtas, mas bem cultas, de uma sabedoria enorme, que carregava de peso cada palavra sua, sempre inspirada no 25 de São Mateux. Seja qual fosse o Evangelho, era sempre esta a sua mesma conclusão. Por exemplo:

  • “Ao falar do Reino de Deus comparado ao grão de mostarda dizia que o importante na grandeza da árvore não estava no seu tamanho, mas na capacidade de acolher os passarinhos.”
  • “O homem que incomodou o seu amigo à noite à procura de pão, foi atendido porque não pedia para si, mas para o hóspede que chegou à sua casa naquela hora.”
  • “A matemática de Deus começa sempre com 5: a Santíssima Trindade, eu e você!”
  • “Um fio da barba de João Batista vale muito mais que o Reino inteiro de Herodes”.
  • “Um pensamento bom perfuma o mundo inteiro, enquanto um mau pensamento basta para contaminar tudo”.
  • “Ser capaz de corrigir o irmão é uma grande obra de caridade. A comunidade que consegue fazer revisão de vida, já está bem adiantada na prática da caridade”.
  • “Simeão baixou os olhos para o céu, pois o céu era o pimpolho que ele tinha nos braços.

Quando já estava com dificuldade de enxergar, proclamava o Evangelho a seu modo. Assim: era melhor entrar no céu “maneta ou perneta” que com ambas as mãos e os pés ir para o inferno. E o juiz injusto resolve atender a viúva que lhe “está torrando as berinjelas”, antes “que tudo termine em pancadaria”. O Magnificat era rezado de um modo totalmente diferente: “Magnificat esta glória que eu celebro do Senhor…”
Mas se existia algo do qual ele não conseguia abrir mão era o “Corar” (o Coral Santa Cecília). Era apaixonado pela música como algo que o dominava por inteiro. A isto se aplicava algo que nos disse certa vez que: “existem professores que dominam a matéria, mas há outros que são dominados pela matéria”. Do altar inadvertidamente regia o côro das Irmãs e se saíamos do ritmo ele quase não se continha. Dizia que devíamos terminar o canto com decisão, como quando se joga uma marmelada na parede. E chegou até a perguntar à Madre se ela não podia cantar um pouco mais grosso. Quando queria trazer o coral em nossas celebrações, ficava bem aflito para conseguir outro Padre para celebrar em seu lugar. Algumas vezes quis fazer as duas coisas ao mesmo tempo, mas foi um desastre, pois a música o tomava por inteiro: no final, os membros do coral tinham que lhe ajudar a celebrar a missa… Foram muitas as melodias feitas por ele e com muita arte compunha os arranjos polifônicos. O coral era o destinatário das suas aflições, lágrimas e alegrias. Quantas vezes nos pediu orações por esta intenção!
Como poderíamos agradecê-lo por tanto apoio, bom exemplo, dedicação e carinho? Mesmo quando de quase tudo se esqueceu, de nós ele jamais se esqueceu. Estando em Curitiba, já na cadeira de rodas, queria vir celebrar a missa no Mosteiro, pois já estava na hora. E quando ouvia alguma música, dizia: “Escuta: as Monjas já estão cantando”.
Querido, Pe. Fulgêncio, hoje estamos felizes, pois até que enfim chegou o dia de vir celebrar novamente conosco. Na verdade, hoje nós celebramos mesmo é a sua vida unida a de Cristo no mistério Redentor do amor, que só pode salvar. Pois, ”a caridade tudo suporta, tudo espera, tudo perdoa. A caridade jamais acabará”. Com Cristo você vive eternamente; e como lhe era peculiar, continue, com sua intercessão, fazendo o bem para todos nós.

Monjas Passionistas

Caso alguém tenha alguma lembrança especial do Pe Fulgêncio, pode entrar em contato pelo telefone 16 3371-9603 ou pelo e-mail: mspaulodacruz@yahoo.com.br

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Escrito por Província do Calvário

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