“Para mim, o viver é Cristo, e o morrer é lucro” (Fl 1,21)

florIniciamos o mês de novembro fazendo memória dos nossos entes queridos que já partiram para a casa do Pai. O ano litúrgico está se findando e as leituras propostas pela Igreja tem um sentido escatológico, lembrando aquilo que professamos no Credo: “… donde há de vir e julgar os vivos e os mortos”. Tudo isso nos convida a refletir mais profundamente sobre o mistério da morte.

O nosso Deus é o Deus dos vivos (Mt 22,33) e a missão de Jesus foi trazer vida para todos (Jo 10,10), por isso, a Igreja investe na vida, busca promovê-la e exorta os fiéis a defendê-la. Mas, por que, constantemente ela fala da morte?

Acontece que a vida tem o sentido que damos à morte, se evitamos falar dela, nossa vida terrena se torna medíocre e cada vez mais aumenta o pânico, as fantasias e as superstições sobre essa realidade que é parte constitutiva da condição humana.

Embora ninguém se acostume com a idéia de morrer, ou de perder as pessoas queridas, a morte nos coloca diante de uma verdade incontestável: a existência humana é breve e “dissolúvel” desde o primeiro instante.

A teologia mostra que a partir da fé e de um olhar profundo na Sagrada Escritura, a morte passou a ser o momento privilegiado da liberdade humana e o lugar por excelência da esperança cristã.

O Antigo Testamento aponta que a vida humana é dom de Deus e tem um valor imprescindível (Jó 2,4). Entretanto, não temos a posse dela, mas a ganhamos para multiplicá-la sempre mais.

Olhando para Jesus, vamos vê-lo experimentando a morte de pecado, ainda que sendo justo (Mc 15,37; Hb 5,7), mas a sua ressurreição é a confirmação do próprio Deus de que a vida é mais importante e é a finalidade de toda a criação.

Dessa forma, o cristão é chamado a “morrer em Cristo” e quando isso acontece se aceita a vida como dom, se vence o egoísmo e se coloca a vida a serviço do próximo (2 Cor 4,7ss; Rm 8,36). Nesse sentido, São Paulo da Cruz, usa a expressão “morte mística” que significa morrer para tudo o que não é de Deus, a fim de que Cristo nasça em nós (divino nascimento) e a vida seja realmente expressão do Evangelho.

Não podemos nos esquecer de que, pelo batismo, já morremos em Cristo e Nele vivemos uma vida nova. Graças a Ele, a morte adquiriu um sentido positivo (Fl 1,21; 2 Tm 2,11) e a morte cristã se transformou num ato de obediência e de amor para com o Pai, a exemplo de Cristo.

A alternativa cristã diante da morte é a ressurreição e não a reencarnação (Hb 9,27). Jesus Cristo ressuscitou no seu próprio corpo e nessa ação, o Pai mostrou que é Aquele que ressuscita os mortos, Aquele que em Jesus nos ressuscitará pelo seu poder.

Na morte, estaremos entregues à misericórdia divina. O encontro decisivo com Deus vai acontecer numa esfera de amor infinito, porque Deus quer que o ser humano participe de sua própria vida. Mas será que estamos preparados para esse encontro?

A crença na vida pós-morte aumenta a responsabilidade diante da vida terrena, porque a Salvação não é um ato mágico, mas um processo dinâmico durante toda a existência humana. É um comprometer-se com essa vida dada por Deus e que um dia será resgatada em plenitude. Dessa forma, ela não pode ser desperdiçada e nem vivida de qualquer jeito. Deve ser uma vida de solidariedade com o cosmo, com o mundo e com as pessoas, fruto da intimidade com Deus.

Ocupar-se da morte significa ocupar-se com a vida, pois “morrer é parte integrante da vida, tão natural e possível quanto nascer”. (Elisabeth Kübler-Ross)

Pe. Amilton Manoel da Silva, CP