SAM_4839 (2) (1)São Paulo da Cruz tinha uma estampa do menino Jesus descansando sobre a cruz e contemplando os objetos da Paixão. Essa estampa mostra que a Paixão como dor e amor está presente na vida de Jesus desde a sua Encarnação. Enquanto dor, no presépio, é a situação de pobreza, simplicidade e pouca acolhida que o mundo deu ao autor da vida, no momento do seu nascimento. Por outro lado, é amor de um Deus, que se faz humano porque ama e esse amor se estende para todas as coisas criadas.

Da cruz, o Menino contempla os objetos da Paixão. O que passaria pela cabeça de uma criança, se ao nascer ela já pudesse imaginar toda a sua vida como caminho de cruz, de dor e de crucifixão? Se ela já pudesse sentir o sofrimento de uma coroa de espinhos, da flagelação, dos insultos e desprezos humanos? Vemos hoje, tantas crianças que mesmo sem esse olhar contemplativo, são vítimas de abusos e violentadas em seu direito de ser criança. O Menino Jesus ao ver-se na cruz traz presente a realidade dolorosa das crianças crucificadas.

O Menino Deus descansa sobre a cruz. Essa posição da criança divina lembra a palavras do próprio Jesus: “Vinde a mim vós todos que estais cansados e sobrecarregados sobre o peso de cada dia e vos aliviarei. Aprendei de mim que tenho o peso leve e suave, sou manso e humilde de coração”. Talvez a cruz humana não dê motivos para o descanso, como a do Menino. Porém, se mantermos a consciência de que a nossa cruz é a de Cristo, então encontraremos Nele a tranquilidade para todo cansaço. Há muita gente precisando ouvir este convite do Senhor, pois o desânimo, o desencanto e o tédio já tomou conta de suas vidas e aí a vida perdeu o sentido. Gente que já desistiu de viver e precisa descansar na cruz de Cristo.

O Menino está Crucificado. “Quem quiser me seguir, disse Jesus, renuncie a si meso, tome a cada ida a sua cruz e siga-me”. O Menino na Cruz já aponta o seu caminho e de todos aqueles que o seguirão. A renuncia do Menino aos brinquedos e sua opção pelos objetos a Paixão, lembram a decisão que todos os dias devemos tomar. O acolhimento da cruz, a cada dia, aponta que devemos estar prontos para morrer a cada instante pelo Evangelho colocando permanentemente nossa vida nas mãos de Deus.

O Menino sobre a cruz é a Kenosis, pois o Verbo se encarna e assume a nossa natureza humana. Em São Paulo da Cruz, o nascimento ou o renascer tem um caráter que é ao mesmo tempo, pascal e natalício. Paulo da Cruz experimenta uma verdadeira simbiose entre o mistério pascal e o mistério do Natal. Assim escreveu ele por ocasião do Natal à Maria Crucifixa: “pedirei nas minhas orações, nestes santos dias e especialmente na solenidade do Natal, para que a sua Divina Majestade te faça renascer no divino Verbo humanado, a uma vida santa, para que não viva você, senão que viva Cristo Jesus”. Próximo da Páscoa, ele escreveu a Ana Sagneri: “Fique solitária naquele sagrado deserto interior em fé e santo amor. Ali renasça no divino Cristo Jesus a uma vida nova de amor, vida santa. Adore a Deus, em Espírito e Verdade: ali se ama e se aprende a ciência dos santos”.

Nosso fundador nos ensinou como podemos viver intensamente este tempo em preparação para o santo Natal. Assim ele escreveu a Inês Grassi: “Eu gostarei que você nestes dias de Natal elevasse a alma em contemplação dos divinos mistérios da Encarnação do Filho de Deus e visitasse a Imaculada Senhora que traz nos braços o Verbo Encarnado. Que se humilhasse a seus pés pedindo a ciência para entrar no gabinete do amor, que é o seu coração Santíssimo, a fim de amar ali o esposo divino que se encontra tão pequeno. Tudo isso deverá fazer em pura fé, em espírito e sem figuras, toda absorta em Deus, a quem tudo compreende. Deixe que a sua alma fique presa de altíssimo espanto e se maravilhe de amor, ao ver o Sumo Bem feito criança, a infinita grandeza humilhada, por amor à humanidade.”

Apesar do Natal ser uma festa de luz e de vida, continua sendo Paixão, para aqueles que não tem moradia, trabalho, saúde, dignidade…para aqueles que substituíram o Menino Jesus pelo papai Noel, para aqueles que já não acreditam e não mais investem no amor.  Natal é Paixão, no amor de quem se doa, nos Cirineus anônimos que vão além de si mesmos e são capazes de olhar a sua volta e ver que a vida é bem maior que seus próprios sonhos e projetos. Natal é Paixão porque Deus continua se encarnando para que os seres humanos tenham vida e vida em plenitude.

Presépio e Paixão: o Menino Jesus na cruz continuará sempre nos apontando que a vida é Natal e é Páscoa, num único mistério de salvação.

 

Pe. Amilton Manoel da Silva, CP