O livro-entrevista tem lançamento hoje (20/3) em vista da Jornada Mundial da Juventude, que será celebrada no próximo Domingo de Ramos, no Vaticano e nas dioceses dos cinco continentes. Mais de 20 países lançam simultaneamente o segundo livro do Papa Francisco. Após ‘O nome de Deus é misericórdia’ (2016), que ultrapassou a cifra de 200.000 exemplares vendidos só no Brasil, a Editora Planeta traduziu com exclusividade a edição em português para o Brasil e a confiou ao Pe. João Carlos Almeida, scj (Padre Joãozinho).

Os jovens são profetas com asas

O jovem tem algo de profeta, e deve perceber isso. Deve estar ciente de ter as asas de um profeta, a atitude de um profeta, a capacidade de profetizar, de dizer mas também de fazer. Um profeta do hoje tem a capacidade, sim, de condenação, mas também de perspectiva. Os jovens têm essas duas qualidades. Eles sabem condenar, mas muitas vezes eles não expressam bem a sua condenação. E eles também têm a capacidade de examinar o futuro e olhar para frente.

Os jovens de hoje estão crescendo em uma sociedade desenraizada

Para entender um jovem hoje você tem que entendê-lo em movimento, não pode ficar parado e pretender estar no seu comprimento de onda. Se queremos dialogar com um jovem, devemos ser “móveis”, e então será ele a diminuir a velocidade para nos ouvir, será ele a decidir fazê-lo. E quando diminuirá a velocidade, começará outro movimento: um movimento no qual o jovem começará a seguir o passo mais lentamente para ser ouvido, e os idosos acelerarão para encontrar o ponto de encontro. Ambos se esforçarão: os jovens a caminharem mais lentamente e os idosos a irem mais rápidos. Isso poderia marcar o progresso. (…) Os adultos muitas vezes desenraízam os jovens, erradicam suas raízes e, em vez de ajudá-los a serem profetas pelo bem da sociedade, os tornam órfãos e descartados. Os jovens de hoje estão crescendo em uma sociedade desarraigada.

Pedir perdão aos nossos jovens

Devemos pedir perdão aos nossos jovens porque nem sempre os levamos a sério. Nós nem sempre os ajudamos a ver a estrada e a construir os meios que podem permitir a eles de não serem descartados. Muitas vezes, não sabemos como fazê-los sonhar e não somos capazes de entusiasmá-los. É normal procurar dinheiro para construir uma família, um futuro, e para sair do papel de subordinação aos adultos que os jovens hoje têm por muito tempo. O que importa é evitar experimentar a ânsia da acumulação.

É o trabalho, a comida da alma e não dinheiro

O trabalho deveria ser para todos. Todo ser humano deve ter a possibilidade concreta de trabalhar, de demonstrar a si mesmo e a seus entes queridos que ele pode ganhar a vida. Não se pode aceitar a exploração, não se pode aceitar que muitos jovens sejam explorados pelos empregadores com falsas promessas, com pagamentos que nunca chegam, com a desculpa de que são jovens e devem fazer experiência. Não se pode aceitar que os empregadores pretendam dos jovens um trabalho precário e até mesmo gratuito, como acontece (…). Os jovens nos pedem para serem ouvidos e nós temos o dever de escutá-los e acolhê-los, não de explorá-los. Não há desculpas para isso.

Muitos pais criam seus filhos à cultura do efêmero

Parece que crescer, envelhecer, amadurecer, é ruim. É sinônimo de vida terminada, insatisfeita. Hoje, parece que tudo é manipulado e mascarado. Como se o fato de viver não tivesse sentido. Recentemente eu falei sobre o quão seja triste que alguém queira fazer o “lifting” também ao coração! Como é doloroso que alguém queira cancelar as rugas de tantos encontros, de tantas alegrias e tristezas! Muitas vezes, há adultos que brincam de ser jovens, que sentem a necessidade de colocarem-se ao nível do adolescente, mas não entendem que é um engano. É um jogo do diabo. Não consigo entender como é possível que um adulto se sinta em competição com um jovem, mas, infelizmente, acontece cada vez mais isso. (…) Há muitos pais adolescentes na cabeça, que querem viver a vida efêmera eterna e, conscientemente ou não, fazem suas crianças vítimas deste perverso jogo do efêmero. Porque, de um lado, criam crianças encaminhadas à cultura do efêmero e, do outro, as fazem crescer sempre mais enraizadas, numa sociedade que eu chamo de “desarraigada”.

Velhos sonhadores e jovens profetas são a salvação da nossa sociedade desarraigada

Os adultos muitas vezes desarraigam os jovens, erradicando suas raízes e, em vez de ajudá-los a serem profetas pelo bem da sociedade, os tornam órfãos e descartados. Os jovens de hoje estão crescendo em uma sociedade desarraigada. (…) Hoje, as redes sociais parecem nos oferecer esse espaço de conexão com os outros; a web faz os jovens se sentirem parte de um único grupo. Mas o problema que a Internet comporta é a sua virtualidade: a web deixa os jovens no ar e por esta razão extremamente voláteis. (…) Um caminho forte para no salvar, creio seja o diálogo, o diálogo dos jovens com os idosos: uma interação entre idosos e jovens, até ultrapassando provisoriamente, os adultos. Jovens e idosos devem conversar uns com os outros e devem fazer isso cada vez mais frequentemente: isso é muito urgente! E devem ser os idosos, como também os jovens, a tomarem a iniciativa. (…) Mas esta sociedade descarta uns e outros, descarta os jovens como também descarta os idosos. No entanto, a salvação dos idosos é dar aos jovens a memória, isso torna os idosos verdadeiros sonhadores do futuro; enquanto a salvação dos jovens é pegar esses ensinamentos, esses sonhos e levá-los avante na profecia. (…) Os idosos sonhadores e os jovens profetas são o caminho da salvação da nossa sociedade desarraigada: duas gerações de descartados podem salvar todos.

Deus é jovem porque “faz novas todas as coisas” e é social

Deus é Aquele que renova sempre, porque Ele é sempre novo: Deus é jovem! Deus é o Eterno que não há tempo, mas é capaz de renovar, rejuvenescer-se continuamente e rejuvenescer tudo. As características mais peculiares dos jovens são também as Suas. É jovem porque “faz novas todas as coisas” e gosta de novidades; porque surpreende e ama o estupor; porque sabe sonhar de deseja os nossos sonhos; porque ele é forte e entusiasmado; porque constrói relacionamentos e nos pede para fazermos o mesmo, é social. Penso na imagem de um jovem e vejo que ele também tem a possibilidade de ser “eterno”, colocando em jogo toda a sua pureza, criatividade, coragem, energia, acompanhado pelos sonhos e sabedoria dos idosos. É um ciclo que se fecha, que cria uma nova continuidade e me recorda a imagem da eternidade.

Por Vatican News