Quaresma.Estamos na Quaresma, e nesse tempo de graça, creio que é importante uma decisão: romper com as estruturas de morte e dar continuidade aos sinais de vida apontados pela fé. Dessa forma, a Páscoa terá seu verdadeiro sentido.

A estratégia da ruptura sempre foi usada por grupos sociais, como modo de dizer não às formas envelhecidas e opressoras, que buscaram estagnar o pensamento e a ação. Por outro lado, o esforço da continuidade com uma obra iniciada, cujos resultados foram benéficos para a coletividade, também tem sido o método adotado pelos seres humanos, sobretudo, como realização dos próprios ideais, que de certa forma apresentam-se concretizados no que está dado.

O povo de Deus foi construindo a sua história da mesma forma. A “descida” de YHWH (Ex 3, 7-10), exigiu o rompimento com as antigas divindades. O “El” se fez único, pessoal e histórico. A quebra da idolatria trouxe um novo modo de conceber Deus, de experimentá-lo e de comunicá-lo. O Memorial selou essa forma de conceber a divindade. A continuidade se deu na busca do sagrado, na sede e fome insaciáveis do transcendente e na fidelidade e infidelidade à lei, às promessas e aos bons desejos.

No Novo Testamento, Jesus Cristo se fez o parâmetro, por excelência, das rupturas e da continuidade. Ele ensinou e mostrou aos seus seguidores que era preciso romper com aquilo que não construía o Reino e com o jeito de pensar e agir do mundo. Por outro lado, suas opções sinalizaram caminhos de continuidade com o Pai, que desde o princípio se revelou como o bem maior da criação; como também, continuidade com os homens e as mulheres de boa vontade, que ao longo da história reconstruíram a vida.

Olhemos para São Paulo da Cruz e seu tempo. Paulo foi capaz de dizer não a uma Igreja que caminhava no “esquecimento”, a cristãos que viviam uma prática religiosa anêmica, a uma sociedade estéril e sem Deus. A “descoberta” do Crucificado e a memória, como remédio para banir todos os males, foi a retomada do Deus amoroso e esponsal revelado por Jesus Cristo, cuja potencialidade se deu a conhecer no Calvário de ontem e continua a se manifestar na Paixão do mundo atual.

A Quaresma nos convida às rupturas e à continuidade, para isso é preciso olhar para o céu, para dentro de nós mesmos e ao nosso redor.

Rupturas: Olhando para o céu, talvez nos deparamos com um Deus distante, pois buscamos muitos conteúdos sobre Ele, mas falta-nos realmente CRER e fazer a experiência da sua pessoa e do seu amor transbordante… Romper com a fé superficial e mascarada, é o grande desafio.

Olhando para dentro de nós, talvez nos amedrontamos com os monstros que ai moram… Costumamos fugir do espelho que escancara o vazio e o jeito medíocre que estamos vivendo… É preciso romper as barreiras do medo, que nos impedem de um verdadeiro autoconhecimento, caso contrário será impossível a conversão.

Olhando ao nosso redor, parece que o mal ganhou forças e neutralizou o profetismo, aderimos facilmente ao convite da indiferença frente a: violência, as injustiças e à marginalização. É preciso romper com a omissão, com o silêncio frente à dor e com a falta de humanidade.

Continuidade: O que é preciso reafirmar e dar continuidade a partir dessa Quaresma? Cada um olhe para o céu, para dentro de si mesmo e ao seu redor, e perceba as ações de Deus que não podem ser caladas, esquecidas ou ignoradas e prossiga como peregrino da fé, discípulo missionário da esperança e testemunha do Crucificado/Ressuscitado, que por mais de dois mil anos continua servindo, amando e salvando.

Não deixemos a Quaresma passar por nós, mas passemos por ela, fazendo rupturas e reafirmando continuidade, certos de que, nesta síntese de morte e vida, a Páscoa será a melhor resposta para aquilo que deixamos, e a base segura para aquilo que qualificamos, de humano e divino em nós.

 

Pe. Amilton Manoel da Silva, CP