homem2Muitas vezes as comunidades investem esforços para reformar o espaço religioso, o lugar de encontro dos fiéis. Isso é bom e necessário porque possibilita acolhida, conforto e clima de oração favorável. Todavia, para nós cristãos, o cuidado com o templo material não é o essencial para nossa fé. Isso pelo fato de que não pertencemos a uma religião do templo, como é o caso dos judeus.

Em suas origens, os cristãos não tinham um templo para se encontrar. Pelo contrário, reuniam-se escondidos e com medo das autoridades nas casas daqueles que haviam se convertido à fé em Jesus Cristo. Esse período ficou conhecido como a época da Igreja doméstica. Só depois, com Constantino (sec. IV), que o cristianismo ganhou visibilidade com os grandes templos. Mesmo sofrendo essa influência das vicissitudes históricas, em seu modo de existir, o cristianismo não é a religião do templo.

Jesus, no quarto evangelho, entra em confronto com aqueles que faziam do templo um lugar de comércio. Esse gesto mais do que significar um elogio ao templo material, sinaliza para a denúncia da exploração religiosa sobre os pobres. As autoridades religiosas da época possuíam muitos bens e, na festa da páscoa, colocavam os animais à venda, a fim de serem sacrificados no templo. Os pobres não tinham condições de comprar um animal para ser sacrificado. Eles ofereciam pombas, as quais também eram vendidas por preços acima da quantia. Por isso, Jesus se irrita com os cambistas e com os vendedores de pombas.

Com Jesus, o templo ganha três importantes significados. O primeiro, é apresentado em Jo 2,19: “Destruí este templo, e em três dias o levantarei.” Neste primeiro significado o corpo de Jesus é o novo templo porque em sua própria carne ele se ofereceu ao Pai, como obediência ao seu projeto de amor que redimiu a humanidade. O segundo significado é encontrado em 1 Cor 3,17: “[…] o santuário de Deus é santo, e vós sóis esse santuário.” A pessoa é templo de Deus porque nela habita a graça. Nela Jesus faz morada por meio de seu Espirito. Também somos o templo porque possuímos um coração, o qual é o lugar íntimo de encontro com Deus. Por fim, o terceiro significado que o templo assume reside na comunidade dos fiéis que tem Jesus como o seu alicerce. Toda a Igreja (não a igreja material) forma o templo vivo de Deus, “pois onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, ali estou eu no meio deles.” (Mt 18,20).

A partir destes três significados reais é possível extrair conclusões importantes. O cristianismo não é a religião do templo material, porque é cada pessoa que constitui a morada de Deus. A ética que se exige em primeiro lugar é a do cuidado com o próximo e não com o aspecto material. Se uma comunidade gasta tempo, investindo todas suas energias em reformas materiais, mas não levanta os caídos, não enxuga as lágrimas dos que sofrem, não tem tempo para atender as pessoas e ouvir seus problemas para buscar as soluções, então ainda, infelizmente, quase não se vive a radicalidade do amor cristão.

É necessário tomar cuidado para não assumirmos um modo de vida baseado nos rumos que o judaísmo do tempo de Jesus abraçou. Os evangelhos narram que Jesus não era a favor das autoridades religiosas que exploravam a vida das pessoas, em detrimento da observância de sacrifícios e ritualismos que não conferiam sentido à existência. Por isso, com a sua morte, Jesus nos ensinou que o calvário da cruz tornou-se o legítimo altar, no qual houve o único e verdadeiro sacrifício em expiação pelos pecados de todos os homens. Portanto, não somos nós que expiamos mais, pois Jesus tudo consumou!

Ademir Guedes Azevedo, CP.