Não vos conformeis com o mundo, mas transformai-o” (Rm 12, 2)

Pope_FrancisEstamos no ano da Vida Religiosa Consagrada instituído pelo papa Francisco, que teve a sua abertura na festa de Cristo Rei, em 2014, e seu término se dará na festa da Apresentação de Jesus no Templo, dia 02 de fevereiro de 2016. Aproveitemos esse mês vocacional de agosto e reflitamos sobre a consagração religiosa.

A Vida Religiosa Consagrada, quando surgiu no séc. IV, com Santo Antão e outros, que foram para o deserto, tinham bem claro sua razão de ser: a liminalidade, ou seja, a vivência radical do Evangelho, o que significava uma atitude de se colocar à frente, puxando a comunidade cristã para o seguimento de Jesus Cristo. Naquele momento, a chama da profecia se reacendia e provocava toda a Igreja.

No decorrer dos tempos, essa especificidade e radicalidade se enfraqueceram e foi preciso buscar definições para compreender a consagração religiosa. Tais definições complicaram ainda mais a vida religiosa, uma vez que todo o cristão é chamado a viver: em estado de perfeição; os conselhos evangélicos; o seguimento radical de Cristo; o compromisso de amor total; o testemunho e sinal do Evangelho etc. Muitos que abraçaram esse estilo de vida se ocuparam mais em viver as definições do que dar sentido ao seu modo de existir.

O que dificultou ainda mais a clareza da vida religiosa foram às várias necessidades da Igreja e as urgências da sociedade, pelas quais ela se sentiu provocada e convocada a assumir, sobretudo, no campo pastoral. A preservação de grandes estruturas de ordem física e jurídica também trouxe desgaste. O excesso de atividades de muitos religiosos (as) levou a se perguntar onde estava o essencial da VRC, no ser ou no fazer? As respostas vieram…

O Concílio Vaticano II buscou dar uma resposta satisfatória quanto à especificidade da VRC. Na Constituição dogmática Lumen gentium e no Decreto Perfectae caritatis, falou-se do caráter carismático da vida consagrada, acentuando seu aspecto simbólico e não tanto instrumental.

O documento Vita Consecrata, escrito por São João Paulo II, buscou mostrar a sua grandeza e importância para o mundo atual e disse que alguns homens e mulheres, por um chamado de Deus, assumem um jeito diferenciado de viver (pobres, castos e obedientes), ao modo de Jesus Cristo, como forma de expressar a transitoriedade do mundo e as realidades eternas. (cf. VC, introdução).

Mas que diferencial é esse? O documento continua: “O caminho de especial seguimento de Cristo, para se dedicarem a Ele de coração indiviso (1Cor 7,34) para estar com Cristo e colocar-se, como Ele, ao serviço de Deus e dos irmãos. Contribuem assim para manifestar o mistério e a missão da Igreja, graças aos múltiplos carismas de vida espiritual e apostólica que o Espírito Santo lhes distribuía, e deste modo concorreram também para renovar a sociedade”.

O papa Francisco, falando aos Superiores (as) Gerais, no final do ano de 2013, chamou a atenção, no seu discurso, com a expressão: “Despertem o mundo!” e disse como: “Os religiosos devem falar às pessoas com a vida e devem promover o crescimento da Igreja via atração. Eles devem ser testemunhas de uma forma diferente de fazer as coisas, de agir e de viver. Os religiosos despertarão o mundo através do profetismo, a profecia do Reino, que ilumina o futuro da humanidade”.

Nas palavras de Francisco, o profetismo é o diferencial que norteou a VRC desde os seus primórdios e se ela não primar por essa característica peculiar, perderá a sua razão de existir. Esse acento do papa permeia também a sua carta convocatória para o ano da VRC: “Às pessoas Consagradas”, bem como os documentos “Alegrai-vos” e “Perscrutai” assinados por ele, para serem refletidos durante esse ano.

Como passionista, trago as palavras de São Paulo de Cruz, que não podem ficar esquecidas: “È preciso propagar a Paixão de Cristo para que a humanidade aprenda a ciência do Amor divino”. O profetismo da VRC passionista, para Paulo, parte da experiência de se sentir amado por Deus, cuja fonte visível desse amor é Jesus Crucificado. Essa experiência é capaz de despertar a pessoa, o passionista, para outra realidade, que o mundo desconhece ou esqueceu. A proclamação da Paixão de Jesus, com palavras e atitudes, é memória, o que leva a humanidade a uma nova forma de olhar a vida, o outro e ao mundo, despertando e transformando o ser humano de dentro para fora. O profetismo, a partir da experiência do amor crucificado, assume a causa de Cristo, movido por seus sentimentos.

Nesse ano da VRC, peçamos ao Senhor que desperte primeiramente os religiosos, fazendo-os voltarem às motivações iniciais do seu chamado e resposta, para que possam despertar o mundo do sono da indiferença e do descompromisso com a vida. Que jamais deixemos de articular e animar os valores que brotam do referencial primeiro, que nos faz existir na Igreja e no mundo.

Pe. Amilton, Manoel da Silva, CP