“Bendize, ó minha alma, ao Senhor, e não te esqueças de nenhum de seus benefícios” (Sl 103,2).

Esquecer-e-dificilQuando falamos de esquecimento, apontamos logo Azheimer. Mas não é sobre doenças que falaremos nesse texto, senão, do lapso mental que por vezes nos incomoda e que, como lembra São Paulo da Cruz, leva-nos a perder o essencial da Revelação.

Esquecer nem sempre é algo negativo, quando se trata de riscar da memória fatos ou cenas que nos fizeram sofrer, como: doenças, traições, um amor perdido, etc. embora alguns afirmam que é preciso recordar esses fatos ou pessoas, de vez em quando, para que a ferida realmente cicatrize. Mas quero me deter no esquecimento, em sentido bíblico e ponto de partida do carisma passionista.

Lendo o Antigo Testamento podemos ver como as intervenções de Deus na história de Israel, com o qual estabeleceu aliança, não foram fatos que caíram no esquecimento, mas tornaram-se “memória”, mantida vida na consciência do povo de Israel, através da celebração dos acontecimentos salvíficos. A fé era alimentada pela memória de Deus sempre fiel, que conduz a história e que constitui o fundamento seguro, sobre o qual se deve construir a própria vida. (Ex, 12, 14; Dt 4, 9)
No episódio de Emaús (Lc 24, 1-26), Jesus, recordando os eventos passados, recolocou os discípulos no Calvário, reconstruindo neles a esperança. Com isso, incendiou os seus corações e abriu-lhes a visão, para que vislumbrassem um novo horizonte, desafiador e exigente: a evangelização dos povos.
São Paulo da Cruz, ainda jovem, contemplando o Crucificado e a realidade que o cercava, eclesial e social, expressou: “O esquecimento da Paixão de Cristo é a causa de todos os males”. Essa “descoberta” de Paulo, poderia ser pessimista e estática, no entanto foi fundante e profética, pois, em seguida afirmou: “A memória da Paixão é o remédio para curar todos esses males”.

No tempo de Paulo a devoção a Jesus Crucificado era grande, chorava-se as suas dores, mas faltava compromisso com a Paixão da humanidade. A insensibilidade com a dor do outro era gritante, os pobres estavam sem atendimento e a sociedade se perdia entre as “ofertas do mercado”, o que reduzia a Paixão do Senhor apenas ao aspecto devocional. Será que em nossos dias é diferente?

Essa constatação de Paulo da Cruz, que mudou o rumo da sua vida e deu início a uma Congregação religiosa, continua despertando os fiéis para a necessidade de olhar profundamente o Crucificado, passando da Paixão dolorosa para a Paixão amorosa. Assumindo os mesmos sentimentos do Homem-Deus suspenso na cruz (Fl 2, 5), agindo em seu nome, fazendo a vida acontecer para todos… Essa é a missão do cristão e, particularmente, do passionista.

Se o esquecimento da Paixão é sinônimo de indiferença e omissão, a recordação do Calvário, ou melhor, a MEMÓRIA DO AMOR (Jo 3,16; 13,1), é a fórmula curativa capaz de devolver ao ser humano a verdadeira imagem de Deus, perdida no início da criação com o pecado e restaurada por Jesus Cristo, no alto da cruz.

Trabalhemos para que a Paixão do Senhor não caia no esquecimento, para isso, sejamos nós mesmos a atualização do mistério pascal.

Pe. Amilton Manoel da Silva, CP
Superior Provincial