uniao-entre-irmaosO Reino de Deus é uma ação que se torna realidade na medida em que a vida é colocada a serviço de todos. O ministério de Jesus é o espelho que reflete a dinâmica de toda existência cristã. Pelo batismo, entramos na comunidade eclesial e assumimos o firme propósito de ser no mundo o Amor. Por outro lado, é necessário renovar esta missão, pois ela necessita ser experimentada em contato com as mais variadas formas de vida. Ser protagonista do Reino não nos faz ser melhores, porém exige que tenhamos o cuidado para que não transformemos em mérito próprio os frutos colhidos. Tudo é de Deus!

O evangelista Mateus narra uma parábola que considera o Reino como sendo uma vinha plantada por Deus e dada aos homens (cf. Mt 21,33-43). Nessa vinha é necessário que se produza frutos de justiça. Quando nela se desenvolve interesses próprios, então ela poderá ser tirada e entregue a outras pessoas, a fim de que não se interrompa a proposta de amor que Deus quer oferecer aos homens. Muitas interpretações dessa parábola entenderam que os judeus perderam a vinha para os cristãos, pelo fato de não aceitarem Jesus como o messias esperado. No entanto, será que nós cristãos também não corremos esse mesmo risco? Dependendo do modo de como damos testemunho do evangelho, também poderemos chegar a não ser mais operários da vinha do Senhor. Mas vale salientar que nossa saída é realizada por nossa autoexclusão, pois Deus quer que permaneçamos, mas o mal uso de nossa liberdade acaba nos deixando a margem da vinha.

As vezes nosso jeito de ser cristão não corresponde com o ministério que exercemos na comunidade. Nem sempre o amém que pronunciamos em nossas orações corresponde com nossas atitudes cotidianas. Infelizmente, ainda praticamos a justiça mais dos fariseus do que aquela pregada por Jesus. Nesse sentido, o Papa Paulo VI dizia que “as pessoas de nosso tempo escutam mais as testemunhas do que os mestres e se escutam os mestres é porque são testemunhas.” (EN 42). O papa queria dizer que no tempo em que vivemos, aqueles que pregam grandes teorias, mas não as colocam em prática, não convencem mais do que aqueles que, com o modo de vida, cuidam de testemunhar, em vez de elaborar discursos eloquentes sobre o evangelho.

Nessa vinha, que é a comunidade de Jesus, tem lugar os pecadores. Isso é reconfortador. Por isso, sempre é tempo de buscar a misericórdia. Nesse sentido, na vinha ninguém deve ser ou se sentir excluído, mesmo que sua vida não seja testemunho. É missão da comunidade, que se formou em torno do anúncio do Reino de Deus, zelar acima de tudo pela vida de cada sujeito. A comunidade de Jesus se diferencia de todas as outras no sentido de que não tem um código legislativo excludente, mas todas as suas ações são medidas pelo amor e o perdão. Na parábola narrada por Mateus, ao contrário do que muitos pensam, Jesus não exclui de seu projeto o povo judeu, ele está se dirigindo aos sacerdotes e anciãos, os principais representantes da religião da época. Com isso, o que é preciso entender é que a religião não pode ser para um grupo específico, mas deveria sempre incluir, e não excluir.

Outubro, no Brasil, é tido como o mês das missões. A missão é o próprio modo de Deus agir em favor do povo. Ela não tem limite, nem geográfico nem humano, porque quer dialogar em todas as partes e com tudo aquilo que é humano. Nesse mês, podemos refletir sobre os frutos da vinha que Jesus nos confiou. Tais frutos serão possíveis se nos ocuparmos “com tudo o que é verdadeiro, respeitável, justo, puro, amável, honroso, tudo o que é virtude ou de qualquer modo mereça louvor” (Fil 4,8). Será que nosso batismo é sinal da comunidade de Jesus? Em tempos de pós-modernidade, onde as relações rapidamente de desfazem, que tal assumir definitivamente a justiça do Reino e não compactuar com as formas de opressão que comprometem a vida em todos as suas dimensões? Pensemos nisso!

Ademir Guedes Azevedo, CP.