Nossa sociedade propaga de todas as formas as novidades que a caracterizam, tanto tecnológicas como comportamentais. Afirma-se à exaustão as vantagens de vivermos numa sociedade laica, considerando-a mais progressista porque liberta de amarras religiosas ou a ela incorporadas pela força da tradição. Atualizada seria uma pessoa sem religião, sem limites em suas escolhas e, infelizmente podemos dizer, sem referências éticas e morais. Confunde-se laicidade com ateísmo. Trata-se de fazer o que se bem entende e basta. Qualquer questionamento pode ser considerado assédio moral e gerar processos, condenações e indenizações. Carregando as tintas, podemos encontrar em tantas pessoas a busca de um “liberou geral”. O resultado já é desastroso em muitos ambientes e parece que a sociedade deverá desmoronar totalmente para que, quem sabe, olhe para dentro e para o alto.

De onde virá o socorro e as respostas consistentes para os impasses hoje existentes? São abundantes as soluções apresentadas, a partir de modelos organizativos, nas empresas ou nos diversos países. Multiplicam-se as leis, os projetos de reforma de todos os matizes. Alianças entre regiões e nações são construídas e desfeitas, em busca do melhor caminho. Assiste-se a movimentos migratórios suscitados pelas crises políticas e econômicas como há muito não se via. Em nosso país, as práticas políticas, sejam quais forem as cores político-partidárias, revelam-se insuficientes e erráticas.

Na história do povo de Deus no Antigo Testamento foram muitos os acertos e abundantes os erros. Multiplicaram-se normas e mandamentos, cresceram grupos radicais e outras tantas pessoas entraram na estrada da mediocridade. Correntes rabínicas reivindicavam prioridade para um mandamento ou outro e a confusão se estabelecia. Para muitos, ficava mais fácil o relaxamento, já que os exageros se multiplicavam!

Por muitas pessoas Jesus foi chamado de Mestre, Rabi. E dele os próprios discípulos esperavam a declaração a respeito do mandamento que lhe fosse mais caro. Foi progressivo seu ensinamento: “Um doutor da Lei, perguntou-lhe, para experimentá-lo: ‘Mestre, qual é o maior mandamento da Lei?’ Ele respondeu: ‘Amarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todo o teu entendimento! Esse é o maior e o primeiro mandamento. Ora, o segundo lhe é semelhante: ‘Amarás teu próximo como a ti mesmo’. Toda a Lei e os Profetas dependem desses dois mandamentos’” (Mt 22,35-40). Já veio uma novidade, quando mostra ser semelhante ao primeiro o segundo mandamento, do amor ao próximo. Perguntado sobre o próximo, dá um novo passo, ao contar a parábola do Bom Samaritano: “Na tua opinião, qual dos três foi o próximo do homem que caiu nas mãos dos assaltantes?’ Ele respondeu: ‘Aquele que usou de misericórdia para com ele’” (Lc 10,36-37). O que ele diz já é totalmente novo, pois a inciativa da “proximidade” deve partir de cada um de nós!

Entretanto, a novidade maior estava para ser relevada. E a Igreja no-la oferece neste próximo domingo do Tempo Pascal (Jo 13,31-33a.34-35). O ambiente é o da última Ceia, quando o grupo de discípulos se encontrava em crise, porque pairava no ar a tensão pela situação de Judas. “Jesus molhou um pedaço de pão e deu a Judas, filho de Simão Iscariotes. Depois do pedaço de pão, Satanás entrou em Judas. Jesus, então, lhe disse: ‘O que tens a fazer, faze logo’. Então, depois de receber o bocado, Judas saiu imediatamente. Era noite” (Jo 13,26-30). No meio da crise, quando tudo se faz noite, Jesus anuncia aquele que é o “seu” mandamento: “Eu vos dou um novo mandamento: amai-vos uns aos outros. Como eu vos amei, assim também vós deveis amar-vos uns aos outros. Nisto conhecerão todos que sois os meus discípulos: se vos amardes uns aos outros”.

Na verdadeira noite da cultura em que nos encontramos, com o desmantelamento de um edifício de valores construído com tanta fadiga, justamente aqui a Igreja tem a coragem de anunciar a novidade, o mandamento do amor. O segredo está numa palavrinha desafiadora, o “como”, para indicar que a solução para a noite da cultura e da civilização só pode vir do alto. A medida do amor, amar sem medida, ninguém nesta terra a tem para oferecer. Só a vida da Santíssima Trindade, Pai e Filho e Espírito Santo, derramada como graça sobre a humanidade, pode indicar a estrada.

É claro que parecerá, aos olhos de muitos, ingenuidade de nossa parte, pois são soluções tão comezinhas, à disposição dos pobres e pequenos, simplesmente amar como Jesus amou! Não se trata de uma técnica complicada e elaborada, de planos humanos resultantes de mil pesquisas, mas iniciar a mudança do relacionamento entre as pessoas. Tal caminho exige que cada um de nós dê o primeiro passo, amando, pronto a dar a vida pela pessoa que estiver ao nosso lado. Pede que cada um descubra o ambiente adequado para que se experimente o amor mútuo. E podemos pensar na desgastada e ao mesmo tempo fecunda realidade da família. A amizade sincera, a vida em comunidades cristãs consistentes, a saída de nós mesmos para curar o tecido social, a coragem para infundir tal prática e mandamento nos ambientes mais desafiadores, quais sejam a política ou as empresas e o debate sobre as questões mais candentes da vida social.

E o desafio volta a nós, cristãos, como um divino bumerangue! “Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns aos outros” (Jo 13,35). Se não estivermos dispostos à decidida e séria conversão ao amor de caridade, como Jesus nos amou, seremos joguetes à disposição dos muitos ventos correntes em nosso mundo, mas não seremos reconhecidos como discípulos de Jesus. Corremos o risco de sermos até como uma Organização não Governamental (ONG), ou poderemos usar as técnicas mais atuais de marketing ou de administração, mas não atrairemos as pessoas para aquilo que é essencial, e não poderemos oferecer o diferencial que nos vem daquele que é Mestre. A nós cabe a responsabilidade de oferecer um caminho ao mesmo tempo revolucionário e pacífico para o mundo! Sejamos fiéis à graça recebida!

Por Dom Alberto Taveira Corrêa – Arcebispo de Belém do Pará, via CNBB