Nem sempre nossa experiência de fé fornece uma ideia de Deus da forma pela qual Jesus de Nazaré veio inaugurar. A civilização ocidental possui forte tendência para o rigorismo e observância de leis. O modo pelo qual a sociedade educa as pessoas, acaba gerando uma dicotomia linguística, caracterizada pelo discurso do “correto” e “incorreto”.

Consequentemente, é difícil a liberdade interior perante as leis. A obediência é mais para reprimir e não para educar por meio de uma ética que parta simplesmente do amor pelo dever. Assim, nossa convivência deveria ser marcada pelo respeito e cuidado com todos, sem necessitar de um código legislativo de repressão.

Todo esse acervo de leis e repressão de nossos atos, origina a ideia de um deus justiceiro, que pune e castiga. A própria educação que algumas crianças recebem constata isso. Se a criança, mesmo brincando, faz algo que não agrada aos pais, imediatamente ela ouve: “não pode fazer isso, pois Deus castiga. Papai do céu está vendo tudo. Ele fica triste com você.”

Às vezes não se mede o grau dessas afirmações, mas parece que elas geram indivíduos medrosos, distanciando-os de uma relação filial com Deus. Se a educação não consegue ser dialógica e convencer pelo testemunho e carinho, então sempre teremos dentro de nós grandes opressores da nossa consciência.

No entanto, Jesus teve uma postura diferente diante da lei. Ele não foi contra, mas demonstrou seus limites e, ao confrontá-la com o valor imensurável da vida, deixou claro que fomos criados para a liberdade e não para as submissões humanas. Nenhum homem, dessa forma, pode escravizar outro semelhante com a criação de códigos legais. Nos evangelhos, a ideia de Deus gira em torno do amor, e não da justiça (pelo menos do modo como muitos a interpretam: dá a cada um aquilo que lhe convém). A ideia do Deus amor ultrapassa o rigorismo da lei, por isso o sábado foi feito para o homem e não o homem para o sábado. Já a ideia que fomenta um deus justiceiro, não coloca o ser humano como o outro que necessita da nossa compaixão. Neste sentido, Jesus propõe que a mesma medida em que amamos a Deus deve ser igual para com a medida que amamos o próximo. Eis, pois, a síntese da pregação de Jesus: “Amar a Deus de todo o coração, de toda a alma e de todo o entendimento e também ao próximo como a si mesmo.” (Mt 22,37.39).

As religiões pagãs adoravam apenas a seus deuses, porém muitas cometiam crimes horríveis contra o próximo. O que devemos evitar é uma relação exclusivamente vertical com Deus. O cristianismo sempre considera o próximo, ama-o da mesma forma que ama a Deus. Isso possibilita uma nova ideia de Deus: um Deus de Compaixão que sempre quer o bem de seus filhos. Exatamente por isso, precisamos evitar uma relação meramente intimista com Deus. Quando amamos apenas a Deus, mas desprezamos nosso próximo, somos egoístas; quando amamos nosso próximo, sem amar a Deus, somos ingratos, pois como amar a criatura, sem prestar o devido amor Àquele que a criou?

A ideia do Deus Amor permite Deus ser próximo e companheiro dos homens, entra na sua história e a redime. O que fazer para essa ideia não ser apenas uma teoria, mas uma realidade? Isso só será possível se em todo ato e ação que realizarmos, nós pensarmos que não estamos agindo sozinhos, mas em companhia com um amigo que respeita o ser humano. Esse amigo é Deus. Seria na verdade aceitar sempre a presença de Deus e adotá-la como critério que condiciona nossas ações. Quando se retira a presença de Deus das relações, então as ações resumem-se em barbárie. Da mesma forma, ao presenciamos atos de violência, preconceitos, agressões de partidos políticos, ideologias de poder construídas pela mídia, então podemos pensar que a ideia de Deus como amor não foi considerada; pelo contrário, o deus justiceiro acaba falando mais alto, pois o que se presencia são reações de vingança que refletem a autoafirmação do sujeito, em detrimento do princípio de responsabilidade e promoção do outro como imagem e semelhança de Deus.

Não descuidemos, pois, da ideia do Deus Amor e veremos que é possível construir uma civilização da liberdade que supera todo medo, da igualdade que vence todo ato que pretende ser superior aos demais e da fraternidade que convida a todos a repartirem o mesmo pão e a própria vida em favor do próximo, sempre tendo a presença de Deus como critério norteador.

Ademir Guedes Azevedo, CP.