capa2A sociedade de consumo investe tempo para produzir e fomentar nos sujeitos o paradigma de que só é possível realização pessoal se cada um entrar nesta onda desenfreada, no intuito de conquistar a chamada “autonomia”. No entanto, tudo isso tem um preço: a família é sacrificada, as relações são esquecidas, o cuidado de si mesmo fica para um segundo plano e, consequentemente, a vida vai ficando vazia e mecânica. Perde-se a criatividade e a capacidade de contemplar e ouvir. E o que é mais grave: inculca-se o ideal de produtividade a partir daquilo que cada um consegue fazer mais, sempre competindo com o outro. Vem as cobranças e o tempo é usado só para produzir o que é exigido. O ser humano deixa de ser reconhecido como uma pessoa e passa a ser uma máquina. Enquanto ela pode produzir, será útil. Se não tem mais força, então torna-se descartável.

O evangelho enxerga o ser humano não a partir daquilo que ele consegue produzir mais do que os outros. A justiça evangélica está intimamente ligada com a Graça. Não é por um mérito que se avalia o sujeito. Vê-se isso na parábola do patrão que sai convidando operários para a sua vinha (cf. Mt 20,1-16). No final do dia, aqueles que foram contratados por último receberam o mesmo pagamento daqueles que foram contratados por primeiro. Hoje, isso soa estranho para aqueles que foram educados na lógica do mercado. Como é possível alguém que trabalha menos, ganhar a mesma quantia de quem trabalha mais?

Mateus apresenta uma lógica bem diferente daquela que estamos acostumados a avaliar e medir os outros. Nessa parábola, o evangelista enfatiza o Reino de Deus como dom e não como uma mercadoria. Nossa época gosta de apresentar desafios aos outros. Aqueles que são mais fortes e astutos, que usam da inteligência para elaborar estratégias, que estudam e trabalham mais acabam se dando bem na sociedade de consumo porque é esse tipo de sujeito que ela procura e que o mercado gosta. Mas o Reino de Deus tem outra lógica e abre a porta para quem aceita o convite. Não exige diplomas, nem qualificação profissional. A única sabedoria que esse reino valoriza é a da cruz. O diploma essencial é aquele que se recebe na escola da comunidade. A atitude fundamental não parte de estratégias financeiras, mas reside unicamente no AMOR. Não queremos com isso, dizer que o evangelho é contra as ciências e o conhecimento, mas esses só têm sentido se forem usados para edificar e não excluir.

Nesta parábola de Mateus, os primeiros trabalhadores ficam indignados com o patrão quando percebem que ele pagou a mesma quantia para os que foram convocados por último. A tradição cristã interpretou esses primeiros trabalhadores como sendo os judeus, pois eles foram os primeiros a serem chamados. São mais velhos na fé no Deus de Israel. Mateus está sempre em diálogo com aqueles que legislavam as leis. No entanto, apresenta Jesus contestando toda forma de farisaísmo. Para ele, Jesus dá plenitude a lei, sem aboli-la. O Mestre ensina a viver na perspectiva do Reino de Deus. As vezes pensamos que Deus ama mais aqueles que estão mais próximos dele. Os que estão iniciando a caminhada de fé são pouco amados, alguns pensam assim. Mas essa parábola apresenta a gratuidade, como fonte de tudo. Enquanto a sociedade de mercado fomenta cada vez mais o ideal do super-homem, o evangelho continua insistindo na graça e não no mérito! Por isso, “meus pensamentos não são como os vossos pensamentos, e vossos caminhos não são como os meus caminhos, diz o Senhor.” (Is 55,8).

Tudo isso serve para refletirmos sobre o modo de ser e agir dos discípulos de Jesus, daqueles que são chamados a fazer parte da sua vinha. Somos todos nós que acolhemos a esse convite. Mas não somos mais importantes do que aqueles que estão começando esta caminhada. Também não somos superiores aqueles que ainda não receberam este dom. O lugar de vivermos é no mundo. Não adianta querer viver apartado de toda a criação que Deus ofereceu a humanidade. No entanto, a forma atual que o mundo chegou não é obra de Deus. Trata-se de um mundo que foi sendo aos poucos deformado pela ação humana, principalmente com o avanço da técnica que exerceu enormes catástrofes. São poucos, infelizmente, que fazem reto uso da técnica para edificar a paz. Estamos no mundo e precisamos viver nele na ótica do evangelho, não assumindo nenhum compromisso incondicional com aquilo que venha a excluir e gerar divisão. Por isso, a gratuidade deve ser mais forte do que a competitividade mercantil; a lógica que mede as relações por meio da produtividade deve ceder lugar a caridade que enxerga sempre a pessoa e não o seu nível de produção. Esse é o paradigma cristão que precisamos ter como estandarte!

Ademir Guedes Azevedo, CP.