Bench and treesA busca por Deus não é apenas uma ação dos cristãos. Mesmo antes da existência do cristianismo esse impulso interior já motivava o homem a se lançar ao infinito, desejando preencher aquilo que a dimensão material não consegue fazer. Assim, por exemplo, pode-se pensar a partir de tempos remotos. Os primeiros hominídeos, segundo as pesquisas antropológicas, mantinham uma relação com o transcendente a partir do ato de sepultar seus mortos. O corpo do defunto era direcionado para a posição em que o sol nascia. O que isso significava? Que a crença numa outra vida já existia. Algumas escavações arqueológicas descobriram que os corpos desses hominídeos eram sepultados em posição fetal. Esse era mais um meio deles alimentarem a esperança de que aquele indivíduo nasceria para outra vida. Todas estas constatações sinalizam que a busca por Deus sempre fez parte do cotidiano humano, desde suas origens.

Em outras culturas pagãs, os elementos da natureza, como raio, sol, lua, astros, pedras, terra, mar, etc eram tidos como deuses. Em outros casos, também existiam as crenças de que alguns fenômenos naturais, não eram deuses, porém eram causados pela ação deles. Assim, um raio não é um deus, mas é causado por Zeus. Em torno desse universo religioso, também se buscava explicações para interpretar aspectos da vida e da realidade circundante. Em todo caso, um acervo mitológico se configurou, ganhou respeito por muitos séculos e moldou gerações em torno das explicações que dele provinha.

No judaísmo, acreditava-se que Deus estava presente no Templo. Era o lugar mais sagrado. À Jerusalém eram feitas várias peregrinações, a fim de cumprir os preceitos da Torá. Todo judeu piedoso respeitava o templo. Todavia, depois que este foi destruído, principalmente com a guerra judaica do ano 70 d.C, como entender a presença de Deus? Onde, portanto, agora Ele (Deus) deve ser encontrado? Os judeus que sobreviveram à guerra tiveram que reorganizar a vida e buscar novo sentido para a própria fé. Com isso, começa-se ganhar notoriedade as sinagogas e atribui-se mais radicalidade a lei, principalmente com a ação dos fariseus radicais que, a fim de colaborarem com a dominação romana, tiveram que impor duras leis, as quais mais controlavam do que libertavam o povo. É nesse contexto que o evangelho de Mateus foi escrito, possivelmente no ano 85 d.C. Mas a grande questão é: como a comunidade de Mateus entende a pergunta “onde está Deus?”

No final do capítulo 25 de Mateus é possível obter uma possível resposta para tal pergunta. O evangelista usa uma linguagem apocalíptica e apresenta Jesus fazendo um discurso que afirma que os povos da terra serão separados, assim como o pastor separa as ovelhas dos cabritos; alguns sentarão à direita e outros à esquerda de Deus. No final de tudo, os bons serão reconhecidos a partir da acolhida que fizeram aos estrangeiros, da visita que realizaram aos que estão presos, da comida que deram aos que passam fome e da ação em dar água aos que tinham sede. O que isso significa? O sistema religioso da época de Jesus era obsoleto (como também é a pastoral de conservação), não via as necessidades dos outros, apenas se fechava em si mesmo, por meio de ritualismos e cobranças de leis. Neste sentido, Mateus sugere que Deus está exatamente fora do templo, Ele se encontra no rosto e vida das pessoas miseráveis, rechaçadas e consideradas impuras pela religião farisaica que Jesus tanto se confrontou profeticamente.

A característica base da vida cristã é a caridade, que é o amor incondicional a todos, principalmente aos que sofrem. Infelizmente, hoje, vivemos numa sociedade que injeta nela mesma um antídoto que a deixa imune às necessidades dos outros, acaba ficando cega ao cenário degradante das vidas de milhões de pessoas que são esquecidas e tidas como o “lixo humano”. Mas é Nele que Deus está! São a elas que deveríamos nos dirigir por primeiro. Esse “lixo humano” deveria ser o segundo sacrário de nosso encontro pessoal com Jesus Crucificado. Doeu, certamente, na alma de Irmã Dulce (o anjo bom da Bahia) ver tanta gente sofrer por falta de amor. Não só na alma dela, mas também na de outros cristãos, como Francisco de Assis, que beijou o leproso; como na de Paulo da Cruz, que foi solidário com a pobreza da Marema Toscana. Todavia, foi o desejo incontrolável de ver a todos com dignidade que levou esses personagens a revolucionarem a história com o amor que ultrapassa as barreiras da indiferença humana. Não deveria também doer, hoje, em nossa alma, quando nos deparamos com as várias vidas humanas que são chutadas e esquecidas? O pobre pode até parecer ser um tema esquecido, mas certamente é um dos caminhos que nos leva a sentarmos à direita do Pai! Olhemos a nossa volta e saberemos onde está Deus.

Ademir Guedes Azevedo, CP.