Caros amigos, nosso olhar hoje se detém num problema constante e crescente que atualmente grande parte da humanidade está vivendo de uma maneira direta ou indireta: a violência. Diante desta terrível realidade, somos chamados a nos colocar na contramão do pensamento moderno e romper com o ciclo vicioso do mal. Infelizmente, ainda é muito presente em nosso meio o adágio “mal com mal se paga”. Viver segundo este diapasão só faz aumentar a violência e a guerra.

Nosso Senhor advertiu aos seus discípulos: “Tendes ouvido o que foi dito: Olho por olho, dente por dente. Eu, porém, vos digo: não resistais ao mau. Se alguém te ferir a face direita, oferece-lhe também a outra. Se alguém te citar em justiça para tirar-te a túnica, cede-lhe também a capa. Se alguém vem obrigar-te a andar mil passos com ele, anda dois mil” (Mt 5, 38-41). Este exemplo Ele confirmou na cruz ao perdoar os seus algozes (cf. Lc 23, 34).

Todo aquele que segue os ensinamentos de Jesus deve, por força da própria vocação, ser protagonista na construção de um mundo mais fraterno através da promoção da cultura de paz, da reconciliação e da justiça.

A avidez exclusiva do lucro, a sede do poder e o fechamento nas ideologias, com o objetivo de impor ao outro a sua própria vontade, fazem crescer na sociedade estruturas de pecado que promovem a violência, ferem a dignidade humana e corrompem a busca pelo bem comum. O Concílio Vaticano II, atento às palavras de Jesus (cf. Mt 5, 45), ensina que a construção do Reino de Paz e a superação da violência só será possível quando houver respeito e amor entre os homens.

“O nosso respeito e amor devem estender-se também àqueles que pensam ou atuam diferentemente de nós em matéria social, política ou até religiosa. Aliás, quanto mais intimamente compreendermos, com delicadeza e caridade, a sua maneira de ver, tanto mais facilmente poderemos com eles dialogar” (Gaudium et Spes, 28).

Nossa sociedade está devorada pela intolerância, fruto do individualismo. O desejo de estar sempre certo produz discursos polarizados e inflamados, que só fazem aumentar a tensão e se colocam como empecilho para a paz acontecer.

O mundo carece de pessoas que assumam a vocação de ser “sal e luz” (Cf. Mt 5, 13-14), combatendo constantemente as trevas da ignorância e do egoísmo. Lembremos o que ensina São Paulo: “não te deixes vencer pelo mal, mas vence o mal pelo bem” (Rm 12, 21).

Urge restituir à consciência de que todo homem e mulher de boa vontade é instrumento de paz. Precisamos superar as diferenças, caminhando ao encontro dos que pensam diferente e construindo projetos de diálogo, de reconciliação e de cooperação, afim de tornar possível à comunhão fraterna (cf. Carta do Papa Francisco pelos 800 anos do encontro de São Francisco com o Sultão, 28 fev. 2019).

Assim, para se garantir a paz e o bem comum, é preciso que as relações, tanto pessoais como sociais, estejam alicerçadas na ordem da verdade, construídas segundo a justiça, alimentadas e consumadas na caridade e realizadas sob os auspícios da liberdade (cfr. Pacem in terris,166). Ou seja, é preciso que a paz comece a ser vivida, como valor profundo, no íntimo de cada indivíduo a partir o respeito mútuo.

Por Dom Edney Gouvêa Mattoso – Bispo de Nova Friburgo (RJ), via CNBB