“Bem-aventurados os pobres, porque deles é o Reino de Deus” (Lc 6,20).

SaoPaulodaCruz e nossa SenhoraDia 19 de outubro celebraremos a solenidade de São Paulo da Cruz, fundador da Congregação da Paixão de Jesus Cristo – os passionistas.

Paulo, que viveu no século XVIII (1694 – 1775) é conhecido na Igreja pelos seus inúmeros escritos espirituais, por ter sido um intrépido missionário, e um incansável diretor espiritual de inúmeras pessoas. Porém, poucos conhecem a compaixão e a solidariedade de Paulo para com os sofredores. Ele foi um grande promotor da vida.

O papa Francisco, desde o início do seu pontificado, tem insistido numa Igreja pobre para os pobres, numa igreja das periferias, terna e misericordiosa, que não se cala diante da dor dos seus filhos e filhas. Esse modelo de Igreja já foi experimentado por São Paulo da Cruz, há quase 300 anos e serve de inspiração, não apenas para os passionistas, mas para todo cristão que busca viver radicalmente o Evangelho de Jesus Cristo na sua opção preferencial pelos mais abandonados.

Embora tenha vivido num contexto religioso, cultural e social diferente do nosso, Paulo não dissociou a Cruz e o Crucificado das realidades de sofrimento do seu tempo, pelo contrário, esse olhar levou Paulo a sair de si mesmo e ir ao encontro do ser humano nas suas misérias e oferecer a estes uma resposta: DEUS MORREU CRUCIFICADO, PORQUE NOS AMA. A CRUZ É A MAIOR MANIFESTAÇÃO DO SEU AMOR POR NÓS.

A MAREMA TOSCANA:
Paulo da Cruz quis que o primeiro convento da Congregação Passionista, o de Nossa Senhora da Apresentação, no Monte Argentário – Itália, ficasse próximo à região que, segundo ele, era abandonada pelos evangelizadores por causa da precária situação em que viviam os habitantes deste local, a Marema Toscana – campo baixo e pantanoso situado à beira mar.

Esse local abarcava uma superfície aproximada de 5.00Km2 e tinha uns 33.000 habitantes. Era uma zona dura e agrícola, porém de pouca fertilidade por causa dos pântanos. O clima era quente e 95% da população era analfabeta.

A comunicação era difícil, devido às más condições de caminhos e conduções. Como o clima era quente e insano, havia falta de higiene e alimentação deficiente. Por causa disso eram frequentes as epidemias de tifo, tuberculose e, sobretudo, a malária.

Em pior situação estavam os “forestieri” – gente fora da região ou estrangeiros que iam ali para trabalhar. A maior parte vivia em choças com um saco de palha, ou coisa semelhante, para dormir. Não dispunham de médico e a malária os dizimava em idades que oscilavam entre 20 a 35 anos.
O clero, como a nobreza, gozava de inúmeros privilégios e por isso havia muitos que não tinham verdadeira vocação; buscavam apenas benefícios eclesiásticos se recusando a servir nos lugares mais difíceis.

Foi nesse local que Paulo da Cruz e seus companheiros sentiram em primeiro lugar o apelo de Deus, o clamor pela vida. À pregação do Deus-amor-Crucificado, juntou-se a solidariedade: na pobreza, na simplicidade, na confiança em Deus e na oração.

OS ENFERMOS:
O hospital de São Galicano foi inaugurado no dia 8 de outubro de 1726. A convite do Cardeal Corradini, Paulo e seu irmão João Batista aceitaram colaborar na fundação do hospital. Neste hospital, os dois irmãos buscaram ser enfermeiros de corpo e de espírito. Ordenados sacerdotes, rezaram a primeira missa na capela do hospital, no dia 8 de junho de 1727, festa da Ssma Trindade.

Por sentirem a presença viva de Jesus Cristo naqueles crucificados, Paulo e seu irmão fizeram voto de permanência no hospital. Porém, mais tarde, ambos descobriram que não era por ali a vocação, Deus os chamava para outro apostolado. Pediram ao papa a dispensa do voto de permanência, mas se dispuseram a rezar Missas no hospital até que surgisse outro sacerdote. A atitude de Paulo de servir ao Cristo enfermo e de chegar a prometer permanência junto a sua Paixão, num leito de hospital, não fala apenas da compaixão de um homem frente às dores humanas, mas também nos ensina a sermos mais sensíveis e solidários com aqueles que sofrem.

PALAVRA E AÇÃO
Sabemos também, por vários testemunhos, que Paulo foi ao encontro de bandidos e criminosos; os confessou e apresentou-lhes, sem medo, a força da palavra da Cruz, como também o rosto de um Deus apaixonado que no seu amor incondicional, resgata os seus filhos de qualquer situação de pecado.
É célebre a mediação de Paulo na guerra entre Orbetello e Porto Ercole, entre italianos e espanhóis. Os espanhóis armaram acampamento numa parte do Monte Argentário, impedindo até mesmo a inauguração do primeiro convento, o de Nossa Senhora da Apresentação. Paulo, nessa guerra, exerceu um apostolado particular. Convidado por um e por outro general, acabou atendendo as duas tropas inimigas, o que lhe facilitou a mediação na busca da paz.

Imagens Passionistas (3)Ao término da guerra, Orbetello agradeceu profundamente a Paulo, pois ele teria salvado a cidade. Ainda hoje permanece um marco desse episódio, uma grande estátua de São Paulo da Cruz, no alto do Monte Argentário, abençoando a cidade de Orbetello.

Vale a pena lembrar que, a primeira inspiração de Paulo, ao contemplar Jesus Crucificado, foi a humildade e pobreza e em razão disso, o primeiro nome que a Congregação recebeu foi: “Os pobres de Jesus”. Essa reflexão, unida à atualização da Paixão do Senhor, consolidou o voto especial dos passionistas: “Fazer Memória da Paixão” que traz, em seu bojo, a unidade com o Crucificado e com os crucificados dos nossos dias.

Estas são apenas algumas lembranças de tantas ações que marcaram a vida deste grande homem e santo. Embora não podemos afirmar que Paulo teve de início, uma preocupação social em fundar a Congregação, foi em vista de tantas necessidades humanas e espirituais que o carisma fundacional se deu. É por essa razão que para nós, passionistas, São Paulo da Cruz é referencial para todos os nossos projetos sociais, defesa e luta em prol da vida, promoção e resgate do homem e da mulher.

Pe. Amilton Manoel da Silva, CP
Provincial