“Aprendei de mim, porque sou manso e humilde de Coração”. (Mt 11, 29)

jesusO mês de junho se destaca pelas festas religiosas e as celebrações de alguns santos populares, mas a Igreja dedica também, este mês, ao Sagrado Coração de Jesus. Uma devoção antiga, que ganhou destaque a partir do século XVII, depois das “visões” de Santa Margarida Maria Alacoque, do Coração de Jesus e divulgada para o mundo inteiro, graças a seu diretor espiritual São Claudio Colombiere, jesuíta.

Quando falamos da devoção ao Coração de Jesus, logo pensamos no “Apostolado da oração”, um movimento da Igreja, rico em significado, que atrai centenas de pessoas nas nossas paróquias e que, na sua maioria, são idosos. Porém, numa sociedade com tendência a afirmar a religião como ópio e desejosa de acabar com os símbolos religiosos, será que ainda tem sentido essa devoção?

O Antropomorfismo é comum nos livros bíblicos. Expressar Deus com características humanas, através da linguagem e conceitos, é tornar possível o pensamento sobre Deus e a experiência da sua onipotência, onipresença e amor; embora Ele não deixe de ser entendido como “Ser” transcendente.

Entre tantos significados, o coração, na Bíblia, representa a exultação religiosa (1Sm 2,1; Sl 13, 6). Ele é o símbolo da coragem (Sl 27, 14), da inteligência (Mt 12, 34; Mc 7, 21), da sabedoria e do discernimento (Dt 8,5; Ex 28, 3). É expressão de arrependimento (Sl 51, 8); converter-se é como trocar de coração (Ez 18, 31; 36, 26). Quando Deus derrama o seu Espírito, Ele vem aos nossos corações (Gl 4,6; 2Cor 1, 22; Rm 5,5). O coração de Deus é o lugar do nosso repouso (Mt 11, 28).

A Encarnação da Segunda Pessoa da Trindade possibilitou ainda mais esse “jeito” de olhar e sentir Deus. Dessa forma, voltar-se para o seu Coração, não é um absurdo, se levarmos em consideração as palavras de Jesus: “Vinde a mim todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de Coração; e achareis descanso para as vossas almas. Porque o meu jugo é suave e o meu fardo é leve.” (Mt 11, 28-30)

Na espiritualidade Passionista, o Coração de Jesus é o Coração Crucificado/Ressuscitado, que “amou até o fim” (Jo 13,1). Coração que fortalece os corações que não temem sofrer ou morrer por causa do Evangelho. Coração que pulsa forte no coração humano que se abre para acolher, perdoar e incluir. É o Coração transpassado “de onde brotou a Igreja e os sacramentos” (São João Crisóstomo). A “casa por excelência do cristão; o espaço privilegiado do pecador, onde Deus renova sua fidelidade e seu ardor; a morada eterna possível de se experimentar na terra” (São Paulo da Cruz).

Creio que, com estas considerações, é possível olhar para Coração de Jesus, não simplesmente como um órgão físico, e passar da devoção à memória, pois Ele unifica toda a vida, ensinamentos e obra da Pessoa de Jesus de Nazaré; Nele vê-se um Deus que nos ama com amor humano, por isso podemos senti-lo tão próximo e íntimo de nós, e nos ama com amor divino, nos elevando à condição de filhos, no Filho.

Que tenhamos em nós, os mesmos sentimentos do Coração de Jesus e que Ele faça o nosso coração semelhante ao Dele, na humildade e na mansidão; no amor ao Pai e ao próximo.

Pe. Amilton Manoel da Silva, CP
Superior Provincial