spd-fotologsComo surgiu o monoteísmo? Qual a diferença do monoteísmo vivido pelos cristãos em relação ao dos judeus? Antes do evento da encarnação de Cristo, muitas outras religiões já existiam. Os povos antigos de diversas formas prestavam culto aos deuses. Pode-se com isso pensar que a religiosidade é um dado inerente a vida.

Uma das formas de se relacionar com as divindades, era imaginá-las a partir de aspectos humanos, a fim de torná-las compreensíveis. Por outro lado, é verdade que as culturas também relacionavam os deuses a objetos e fenômenos da natureza. Uma pedra, montanha, árvore podiam estar preenchidas de poderes divinos. As coisas estavam encantadas, eram permeadas por mistérios. Arrancavam, assim, veneração e distanciamento do sujeito em relação ao objeto. Tudo isso leva a entender que o antropomorfismo era uma marca forte da religiosidade antiga.

Mas entre os anos de 1280 e 1250 a. C surge a figura de Moisés. Ele tem uma revelação, na qual Deus lhe fala, enviando-o para anunciar e concretizar a libertação dos hebreus que viviam sob o jugo da escravidão no Egito. Esta personagem, apresenta um Deus diferente dos demais. Ele é o “Eu sou”, sempre atuante, presente e agindo constantemente. Não é possível defini-lo, não se encontram conceitos e características humanas para dele falar. O antropomorfismo tão arraigado na religiosidade politeísta não é mais suficiente. Moisés apresenta um Deus transcendental, vai surgindo paulatinamente um monoteísmo puro que não admite uma definição e compreensão humanas para o Deus que quer realizar a libertação dos hebreus.

O monoteísmo iniciado por Moisés foi ganhando expressão com a lei divina cravada nas tábuas, no Monte Sinai. O infinito assumiu o finito, uma vez que se materializou no livro, na lei escrita. Mas para não correr o risco da idolatria (fazer da materialidade um ídolo), pois uma vez que o divino agora preenche as letras e palavras escritas, a tradição judaica possui o Talmude e a Cabala. Esta última diz respeito ao sentido místico que se esconde por trás da lei. Já o Talmude são os vários comentários tecidos em torno da lei. Trata-se de uma tradição que não recai em interpretações homogêneas, mas sempre abre margem para outras maneiras de compreender a lei. O que é importante nisso tudo é o fato de que a cultura judaica, no intuito de salvaguardar a transcendência de Deus, visa sempre infinitizar a lei à medida que há sempre a possibilidade de encontrar várias interpretações para a mesma. Em outras palavras, Deus é sempre transcendental, nunca podendo se encerrar em conceitos humanos. Isso é um monoteísmo absoluto.

No entanto, com a encarnação de Jesus, o monoteísmo se torna descentralizado. Primeiramente existe a vida intratrinitária, ou seja, o Pai vive em relação ao Filho e estes dois são unidos pelo amor que é o Espírito Santo. A descentralização ganha ênfase também quando o Pai envia o Filho ao mundo, a fim de que os homens tomem posse do reino, gozem de seu amor oblativo que se concretiza com a morte de cruz.

O monoteísmo cristão considera a alteridade, pois a relação com Deus se dá em relação com o próximo. A relação humano-divino só tem sentido se houver a relação do “eu” com o “tu”. Esse tipo de ética alimenta-se cada vez que há uma saída de si mesmo em direção ao mundo, como fez Jesus que se aniquilou, assumiu a Kénosis, descendo do céu para se encontrar com os homens, a fim de que estes pudessem se encontrar verdadeiramente com Deus, restabelecendo a comunhão perdida, desde o pecado das origens. Este monoteísmo descentralizado, portanto, só é possível devido a solidariedade divina que envolve as pessoas da Trindade (o Pai, o Filho e o Espírito Santo).

Por Ademir Guedes Azevedo, CP.