Cristo Ressuscitado.No mundo ocidental fala-se muito de planejamento. Quem não planeja, não sabe aonde quer chegar. A definição de metas é importante para não se perder no caminho. Quando algo inesperado acontece, às vezes nos frustramos porque as surpresas não estavam previstas em nossos planejamentos. No entanto, as surpresas geram impacto que nos convida à reflexão e, muitas vezes, a mudarmos definitivamente nosso jeito de viver e agir. A ressurreição para os discípulos de Jesus foi como uma surpresa porque mudou radicalmente o rumo e os paradigmas que condicionavam a vida deles. Por isso Pedro, em sua pregação, não fala do Reino de Deus, como pregava Jesus nos sinóticos, mas exorta à conversão e aceitação da realidade que Jesus ressuscitado inaugurou.

Durante seu ministério, Cristo havia dito que teria que sofrer e morrer, mas que iria ressuscitar. Porém, os relatos dos evangelhos mostram que o grupo ficou sem ânimo e com medo após a morte de Jesus. O que Cristo havia dito sobre as Escrituras, diante da derrota da cruz, não foi, imediatamente, suficiente para reacender a fé. Porém, a inteligência daqueles que foram chamados foi clareando-se e o coração ardendo, por meio das aparições de Jesus Ressuscitado.

O que levou a identificar o corpo ressuscitado de Jesus com aquele mesmo Jesus que conviveu e se relacionou durante seu ministério foram as marcas da cruz: as mãos e os pés cravados e o lado aberto pela lança. As chagas, portanto, possibilitaram identificar o ressuscitado com o Jesus histórico. Por isso Tomé reivindicou: “Se eu não vir a marca dos pregos em suas mãos, se eu não puser o dedo nas marcas dos pregos e não puser a mãos no seu lado, não acreditarei.” (Jo 20, 25).

Porém, há ainda algo mais significativo por trás destas marcas: é a presença de Deus nas vítimas da morte. Muitos se questionam: por que Deus permitiu que seu Filho passasse por morte tão cruel? Indo mais além: se Deus tem poder, então por que deixou seu próprio Filho ser morto?

Estas não são perguntas novas. Certamente os discípulos de Jesus também tiveram dificuldades de aceitar a sua morte, talvez pelo fato de que haviam projetado expectativas distantes das de Jesus. Isso pelo fato de que também naquela época havia a esperança messiânica de libertação da opressão do poder político. Alguns esperavam que viria um messias forte e poderoso que seria capaz de realizar a libertação de Israel por meio da força. E o que pensar de um homem suspenso no patíbulo da Cruz, morto cruelmente pelo poder romano? Todo o planejamento falhou em suas metas! As expectativas messiânicas ficaram frustradas.

Porém, o Deus que Jesus revelou é bem diferente de todas as expectativas messiânicas de então. Ele não revidou com a violência. Acompanhou até o fim o sofrimento de seu Filho. Na cruz, permaneceu em silêncio diante do grito da vítima: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?” (Mt 27, 46). Por que isso? Seria indiferença? Não! E é exatamente aqui que está a surpresa que impactou toda a existência dos discípulos de outrora e ainda continua nos de agora!

Isso se chama solidariedade crucificada. Qual a natureza de tal solidariedade? Ela significa que o Deus de Jesus em hipótese alguma é violento. Também quer significar que foram os homens que mataram a Jesus, enquanto que Deus realizou a obra maior que coloca em crise os nossos planejamentos pragmáticos: a ressurreição do seu próprio Filho! A solidariedade crucificada resulta numa surpresa que nos faz repensar todos os nossos paradigmas: “Vós matastes o autor da vida, mas Deus o ressuscitou dos mortos, e disso nós somos testemunhas.” (At 3, 15). Trata-se da realização de um projeto que é razoável porque nos faz refletir na possibilidade da transcendência. É algo diferente, por isso os discípulos têm tanta dificuldade de reconhecer o Ressuscitado em suas aparições.

Quem não sente o impacto das surpresas que acontecem na vida e as interpreta à luz da ressurreição, permanece aprisionado em si mesmo, sem dinamicidade e coragem de refazer as metas. Os discípulos, depois do impacto da ressurreição, mudaram totalmente: Pedro certamente conseguiu curar a dor de consciência por ter negado Jesus durante a trajetória de sua Paixão. Foi um papa traidor, porém ressignificou sua fé. Para Paulo, esta experiência da ressurreição foi tão decisiva que ele chegou a afirmar: “Já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim.” (Gl 2, 20). Se não há provas empíricas da ressurreição do modo que exige a ciência moderna, por outro lado, tem-se inúmeras provas de vidas que se entregaram com ousadia em nome do Ressuscitado. Por que será que, depois de dois mil anos, Cristo não é uma peça de museu, mas o Vivente? Porque uma multidão incontável acredita e sente sua presença, deixando em crise alguns valores que não edificam. A surpresa da ressurreição continua sendo um impacto que se perpetua na história…

 

Ademir Guedes Azevedo, CP